ERGA OMNES

Espaço para música, entretenimento em geral (Grêmio, Formula 1, cinema) e questões jurídicas (só para atender aos meus anseios de "jurista"). Aqui as (minhas) opiniões contam, e valem ERGA OMNES! "I,m judge and I,m jury and I,m executioner too." (Hetfield)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

CDs do Kiss - Parte II "Alive III" (1993)


O set list para a turnê de “Hot in the Shade”, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, contou com o retorno de várias músicas antigas do Kiss, especialmente da época do primeiro “Alive” de 1975. Conforme Paul Stanley, isso teria reativado o sentimento de que o Kiss era uma grande banda, e que o material dos anos 1970 era superior ao praticado em meados dos anos 1980, e assim os shows com o novo repertório estavam melhores. A par disso, a banda emplacou o hit “Forever”, tinha bons singles (“Rise to It” e “Hide Your Heart”) e começava a se desvencilhar dos excessos dos álbuns anteriores (as composições de “Hot in the Shade” pareciam mais coesas e até o visual dos caras já não estava tão poser quanto em 1987). Tudo indicava uma excelente nova fase para a banda. Antes, porém, de entrar para o estúdio e gravar novo disco, houve a perda de Eric Carr em novembro de 1991. Alguns meses depois, com Eric Singer na bateria, o Kiss lançou o aclamado “Revenge”, o disco mais pesado desde “Lick it Up”, e partiu para uma turnê bem sucedida. Dessa turnê, com maior ênfase – ainda - no repertório antigo (poucas músicas dos anos 1980 foram executadas), saiu o terceiro disco da série “Alive”.

Na época em que ouvi “Animalize” estava curtindo muito mais o AC/DC. De toda maneira, depois de ouvir “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, virava a fita C-90 e tocava “play” no “Animalize”. Nas lojas de CD, em 1993, comecei a ver disponíveis o “Alive III” e o “Revenge”. Quando achei na locadora perto do Sévigné, onde agora se localiza a Boca do Disco, o “Alive III” imediatamente trouxe para casa. Do repertório do CD só conhecia “Heavens on Fire”, e da formação só me eram familiares a dupla Paul Stanley e Gene Simmons. Depois do almoço, cheguei em casa e ouvi o CD na íntegra, e imediatamente virei fã da banda. E até hoje considero o “Alive III” o meu álbum favorito de todos os tempos.

Geralmente se diz que o “Alive III” não é um bom disco do Kiss, e que fica longe de ser digno da série “Alive”, pois os dois primeiros volumes da série, sim, seriam verdadeiros clássicos. Uma das principais razões para essa reserva seria o fato de que, bem vistas as coisas, não se trata de um disco ao vivo. Sabe-se bem que a maior parte dos vocais foram gravados em estúdio, bem como muitas das guitarras e baixo foram ou gravadas em estúdio ou em passagens de som (não estou certo em relação à bateria). Esse argumento não subsiste quando se lembra que nem o “Alive!”, nem o “Alive II” eram genuinamente discos ao vivo (gravados em passagens de som com retoques em estúdio). Jamais li críticas em relação ao repertório: há os clássicos e as mais recentes, moderadamente dispostas nas 17 faixas do CD simples. Então me parece que é simplesmente o caso dos críticos, por alguma razão, “não terem ido com a cara” do “Alive III” (talvez pela formação não-clássica, pela ausência de Eric Carr, enfim).

Mesmo que se admita o fato de o “Alive III” não ser, propriamente, um disco ao vivo como se diz, isso não desmerece que o disco tem um baita som. As guitarras são vivas e com um timbre muito legal, com todas as músicas sendo executadas espetacularmente. Veja-se que as músicas velhas ganharam nova roupagem e dinâmica – em alguns casos superando as versões anteriores, e na maioria dos casos superando as versões de estúdio. Além disso, o disco contém os melhores registros de Gene Simmons e Paul Stanley no auge da forma. Convém destacar, desde logo, a performance do baterista Eric Singer: a execução é sem reparos, o cara é bastante criativo tanto na elaboração de material próprio (do disco “Revenge”) como na interpretação de material antigo. Gosto de reparar que não importa em que parte da música esteja, há sempre o pedal do hi-hat marcando o tempo como um metrônomo. Bruce Kulick, por seu lado, comprova a evolução experimentada desde “Revenge” e mostra que o cara se deu muito bem quando a banda resolveu adotar um som mais pesado: o timbre de Kulick está muito melhor que o da época anterior (há centenas de bootlegs de todas as épocas para comparar), e o guitarrista se livrou de muitas firulas que comprometiam algumas músicas dos discos de meados dos anos 1980, adotando alguns licks de Ace Frehley no material antigo (revisitando com categoria alguns solos, embora ao seu estilo) e incorporando pentatônicas e efeitos wah-wah nos solos.

O disco abre com “fade in” de um teclado climático que se resolve na abertura de “Creatures of the Night”. Sempre me intrigou o fato do tecladista Derek Sherinian (ex-Alice Cooper e posteriormente ex-Dream Theater) ser creditado nesse álbum, pois francamente além dessa introdução curta e, talvez, da última faixa “Star Spangled Banner”, não consigo ouvir os teclados em nenhuma faixa. Recentemente o cara esclareceu que durante a turnê ele ficava nos bastidores, tocando as músicas num teclado com timbre de guitarra, para preencher os vazios deixados pela guitarra base de Paul Stanley, enquanto este fazia suas conhecidas poses e malabarismos no palco (não necessariamente tocando guitarra ao mesmo tempo).

A minha música favorita do Kiss de todos os tempos é “Creatures of the Night”, assim como o melhor solo da banda é o dessa versão ao vivo (o da versão de estúdio, composta por Steve Ferris, também é espetacular). Os vocais de Paul Stanley são assertivos, os backing vocals bem afinados, o timbre das guitarras é, como em todo o álbum, vivo e dinâmico, e o solo de Bruce Kulick é perfeito. O guitarrista segue boa parte do solo original de Steve Ferris, interpretando-os a sua maneira, e não perdeu a oportunidade de agregar seus licks – assim, o solo é alguns compassos maior do que na versão do álbum “Creatures of the Night”. Curto até aquela ESP com formato Stratocaster que ele utiliza nessa faixa (foto no encarte do CD). Talvez eu seja o único cara que resolveu aprender a tocar violão/guitarra depois de ouvir o Bruce Kulick, e cheguei a essa conclusão só recentemente (mas é verdade: no verão de 1995 estava curtindo bastante o “Alive III” e num sábado resolvi pedir o violão). Não há o que não gostar em “Creatures of the Night”, e é uma das músicas que acho que jamais deveriam sair do set list.

O final de “Creatures (...)” já emenda com o início de “Deuce”, uma das composições mais antigas da banda, e que serve para mostrar o quanto Gene Simmons está mandando nos vocais (mais uma vez, e pela última vez, para mim é indiferente se esses vocais de Gene são de estúdio ou, de fato, ao vivo). Particularmente entendo que Eric Singer criou a levada de bateria perfeita e definitiva para essa faixa, e acho uma pena que o cara tenha se distanciado dela nos anos mais recentes. Aqui o solo de Kulick é competente mas genérico, embora muito melhor do que ele costumava tocar nas turnês anteriores. Fico com a “rhythm guitar” de Kulick e a “lead guitar” de Ace Frehley.

A banda estava promovendo o excelente “Revenge”, então mandou duas em seqüência, ambas com execução muito superior às truncadas versões originais: “I Just Wanna”, de Paul, com várias partes boas perfeitamente posicionadas (incluindo uma “a capella” com três vozes) e um refrão brilhante, talhado para a participação da plateia (“I just wanna f.../I Just wanna f.../I Just wanna ‘forget’-‘f*ck’ you”); “Unholy” é uma clássica de Gene do período mais recente, tendo sido composta numa parceria inusitada e (para mim até hoje) não muito esclarecida entre o baixista e o lendário Vinnie Vincent. Aqui o destaque é para Kulick, que reproduziu fielmente todos os seus solos da versão de estúdio (sem contar a introdução muito legal com o tema de “Tubarão”).

O bom do “Alive III” é ouvir com essa formação (Stanley, Simmons, Kulick, Singer – a minha favorita) e com esse som as músicas que não foram incluídas em nenhum dos anteriores “Alive”, i.é, as músicas posteriores a 1977. “Heavens on Fire” é um dos grandes hinos de Paul dos anos 1980, e a versão aqui é muito boa. O andamento da faixa é melhor do imprimido na época de Eric Carr (o lendário baterista costumava acelerar bastante todas as músicas do set list), mas ainda fico com a levada de Carr durante o refrão (ele era muito bom em criar esses riffs de bateria, se me é dado chamar assim).

O set list dessa turnê era enorme, contando com aproximadamente 24 músicas. Os anteriores “Alive!” e “Alive II” foram lançados em LPs duplos, e obedeceram a mesma fórmula quando passaram para CD – embora um CD de 78 minutos comportasse todo o material desses discos duplos, e todo mundo economizaria uma grana. Em 1993 a situação era diferente, pois 24 músicas caberiam em dois CDs de mais de 60min, e ninguém sairia lesado. Lamento até hoje a decisão dos caras de lançarem um disco simples com apenas parte desse material da “Revenge Tour”, deixando de fora algumas músicas que também tiveram execuções definitivas e perfeitas nessa época, mais precisamente, refiro-me a “War Machine”, “Tears Are Falling” e “Love Gun”: as duas primeiras são clássicos posteriores ao “Alive II” – e assim, não encontraram registro ao vivo oficial – e a última era executada com perfeição pela formação da época (é só ver no “Kiss My Ass” e no volume 3 do Kissology – tenho para mim que a versão de “Love Gun” dessa época é a melhor). Pois além destas terem lamentavelmente ficado de fora do CD simples, para mim resta inexplicável o critério de seleção de algumas das antigas. Seja como for, o fato é que “Hotter Than Hell”, “Firehouse, “I Want You”, dentre outras, sobraram, e para o “Alive III” coube “Watchin´ You”. A execução é primorosa, o solo de Kulick não é nota-por-nota de Frehley, e durante muito tempo curti bastante essa faixa... mas acho que o seu prazo de validade já expirou. Ficaria melhor alguma das já citadas.

Gene continua cantando na próxima, “Domino”, outra do “Revenge”. Trata-se de mais uma que ficou melhor que a versão original, e se beneficiou com as performances de Kulick e Singer. Ajuda o fato da composição ser boa, várias partes legais de guitarra.

Durante muitos anos o Kiss deixou de tocar “I Was Made For Lovin´ You”, e recuperou esse hit de 1979 na famigerada turnê japonesa do álbum “Crazy Nights” (conferir os bootlegs “Dr. Love´s House 1 & 2” e “Live in Japan ‘88”). A banda acertou em cheio na adição deste clássico de Stanley no repertório do “Alive III”, vez que é a última grande música da formação original e que jamais havia contado com uma versão ao vivo oficial. Assim como em “Deuce”, “I Just Wanna” e – mais adiante – “Take It Off” – gosto de prestar atenção na interação entre as duas guitarras, pois há partes diferentes para cada uma (como na época de Ace Frehley, cada guitarrista ocupa um lado do headhpone).

“I Still Love You” tem um clima solene e comovente, dada a interpretação da banda e, sobretudo, de Paul nos vocais e de Kulick nos solos de guitarra (o cara interpretou muito bem os solos da versão de estúdio de Robben Ford). Singer desempenha bem as levadas de bateria de Eric Carr, inclusive os rolos durante o refrão.

Geralmente “Rock and Roll All Nite” serve para encerrar as apresentações, mas na turnê do “Alive III” as coisas se deram diferentemente, pois o maior hino da banda ficava posicionado na intermediária do set list. Prefiro sem dúvidas essa versão do “Alive III” às versões original e do “Alive!”, com melhores vocais, guitarras e bateria (o baixo é igual). Kulick dá uma personalizada no solo, mas o faz de maneira a deixá-la ainda com cara de rock´n´roll como era costume de Ace Frehley. Parece-me que nessa época – de “Revenge” até “Carnival of Souls” – Bruce Kulick só tocava coisa boa.

“Rock and Roll All Nite” é curta e os caras fizeram bem de emendá-la com “Don´t want to wait ‘till you know me better” que inicia “Lick It Up”, outro clássico dos anos 1980 (o primeiro da fase sem máscaras). Sobre esta música, posso dizer que prefiro a versão da época de Eric Carr registrada ao vivo em Budokan, em 1988 (consta apenas um vídeo lançado em VHS no exterior e um trecho do show num disco bônus do volume 2 do “Kissology”; em áudio há bootlegs, dos quais já ouvi “Dr. Love´s House 1 & 2” – alugado na mesma locadora que peguei o “Alive III” e na mesma época – e o “Live in Japan” que adquiri há uns 10 anos na Multisom que ficava no Praia de Belas perto do Nacional por 10 pila – lamentavelmente não há a íntegra do show, faltando o magnífico solo de bateria de Eric Carr e “War Machine”). Em 1988, Paul Stanley estava com a voz no ápice (o cara podia cantar qualquer coisa em qualquer registro em qualquer show), e nos shows no Japão os caras estavam mandando muito bem. A versão do “Alive III”, porém, não deixa de ser competente, e fica bem num andamento não tão acelerado como o que Eric Carr costumava empregar.

Considero “Forever” a melhor balada do Kiss, e a versão de “Alive III” é a definitiva (embora a de estúdio valha por conter os rolos de bateria de Eric Carr no refrão). A essas alturas já é possível eleger Kulick como o MVP do disco, tendo em vista mais um solo – dessa vez no violão - executado com perfeição.

Ainda há espaço no set list para música nova: Paul Stanley faz o chamamento para “Take It Off”, que tem afinação das guitarras um tom abaixo, mas nem se percebe o peso extra – afinal, é rock´n´roll (hard rock) e não heavy metal. No vídeo “Konfidential”, com registros dos shows sob a trilha sonora do “Alive III”, a parte na qual é executada “Take It Off” é um dos pontos altos pela presença das divertidas dançarinas que acompanharam aquela parte da turnê (no Brasil, em 1994, os caras repetiram a experiência, com resultado irregular, digamos assim).

A partir daí, só hinos: “I Love It Loud” é uma das melhores composições de Gene Simmons, e a execução, inclusive da bateria – tenho de admitir – é muito melhor que a versão original. O refrão é matador, as vozes estão perfeitas, e há até um pequeno lick de baixo entre as partes “(...) Right between the eyes” e “Loud, I wanna hear it loud (...)”. Gosto mais desta do que de “Rock and Roll All Night”. E Eric Singer faz um belo trabalho na conhecida levada de bateria de Carr (pequena alteração nos primeiros compassos).

Nunca ouvi uma versão tão pesada e forte para “Detroit Rock City” como em “Alive III”. Os vocais de Paul são assertivos e até as pausas entre os versos são climáticas. A levada de Eric Singer carrega a música melhor do que os bateristas que lhe precederam. Do jeito que ficou no “Alive III”, é melhor ouvi-la no final do show do que na abertura, como ocorreu em várias turnês de várias épocas.

“God Gave Rock´n´Roll To You II” segue o tom de despedida, com a mensagem do título. Essa versão ficou muito melhor que a original de “Revenge”. A introdução foi cortada, e a música entra direto no tema de guitarra com a melodia do refrão. E os trabalhos encerram com uma rendição de “Star Spangled Banner”. Diferentemente do que se poderia supor, os caras não caíram no crime de imitar Jimi Hendrix; pelo contrário, fizeram um arranjo próprio, valorizando a bonita melodia do hino norte-americano.

“Alive III” é meu disco favorito de todos os tempos, pois é perfeito em todos os aspectos: interpretações, som, repertório. Lamentavelmente, os caras perderam a oportunidade de lançar um disco duplo com todo o set list da época, para imortalizar a formação. Tenho grande interesse por todo o material produzido no período, e pelo que já ouvi as performances diferiam pouco do que acabou registrado no CD (o “Konfidential” é bom, mas a trilha é a do “Alive III”, sendo um dos DVDs do volume 3 do “Kissology” o melhor parâmetro, pois contém a íntegra de um dos shows que teria cedido material para o “Alive III”). Depois de “Alive III”, a formação Stanley, Simmons, Kulick e Singer não teve muito tempo para aproveitar a fase produtiva: saíram um disco de estúdio rejeitado pela própria banda após a confirmação do retorno da formação original com as máscaras (o superpesado “Carnival of Souls”), bem como um acústico ao vivo que serviu como prévia da reunião vindoura (o excelente “MTV Unplugged”). Eric Singer ainda voltou substituindo Peter Criss nas suas ausências e após sua demissão, ao passo que Bruce Kulick não foi mais chamado (para o seu lugar, e para vestir a máscara de Ace Frehley, assumiu Tommy Thaier). Em todo o caso, essa formação veio ao Brasil em 1994, conforme documentado pela MTV na época (era o Monsters of Rock em São Paulo, e estava assistindo em casa, na esperança de que fosse transmitido o show – tocaram apenas a primeira música, “Creatures of the Night”; algumas músicas apareceram posteriormente num melhores momentos, e recentemente o show foi disponibilizado quase na íntegra num dos bônus do volume 3 do “Kissology”).

domingo, 15 de novembro de 2009

Resenha de livro - “Justice For All: The Truth About Metallica” Joel McIver


Bom é encontrar um bom livro que sequer sabíamos da existência. Foi essa reação que tive quando encontrei na Cultura por uns 30 pila essa compreensiva e atualizada biografia de uma das minhas bandas favoritas. Como é de rigor, a obra cuida desde os primórdios da infância dos principais integrantes do Metallica até parte da turnê do disco “Death Magnetic” de 2008. No decorrer das páginas, o autor debulha alguns assim chamados mitos em relação a banda, como “Metallica foi a primeira banda de thrash metal e 'Kill´em All foi o primeiro disco de thrash metal”, “Metallica se vendeu e a prova foi a guerra contra o Napster e os discos 'Load' e 'Reload'”, dentre outros.

Ao invés de ler capa-a-capa, não contive a curiosidade e parti direto para o capítulo da época de “...And Justice For All” e os seguintes, pois trata-se da minha fase favorita da banda, ao contrário da grande maioria dos fãs antigos do Metallica. Desde logo percebe-se que o autor soube utilizar seu amplo arquivo de entrevistas de várias pessoas ligadas à banda ou envolvidas com o som pesado. Algumas vezes ficou monótona a leitura de páginas e páginas de transcrições de entrevistas, com repetições de raciocínios e tudo mais. No geral, porém, prevalece a incrível facilidade da leitura, sendo certo que na maior parte do tempo o autor acertou a receita de inserir as falas dos entrevistados no decorrer do texto. Esses depoimentos, muitas vezes colhidos na época dos fatos, contribui para conferir autenticidade e dinamismo ao discurso do escritor. Com riqueza de detalhes, são expostos o recrutamento de Jason Newsted logo após a perda de Cliff Burton, a primeira turnê no Japão, a gravação de um disco de covers, a gravação de “...And Justice for All”, a polêmica da inaudibilidade do baixo nesse disco, a turnê subsequente, a contratação de Bob Rock (pelo fato deste ter conseguido um som tido como magnífico com um disco do Mötley Crue), a gravação e a turnê subsequente do “Black Album”, a gravação dos polêmicos “Load” e “Reload”, o embate com o Napster, o período turbulento que culminou com “St. Anger”, e a volta com “Death Magnetic”. Alguns fatos já me eram conhecidos, mas o autor trouxe vários esclarecimentos e novas perspectivas para coisas que ainda me causavam inquietação. Parece-me, agora, mais coerente que os caras tenham baixado a bola após o “Black Album” para compor o “Load/Reload”, sendo que o autor defende a ideia de que os caras não se venderam (para fazer um som mais comercial), e sim que se tratou de uma tentativa de se reinventar e fazer músicas que fossem divertidas de tocar, e não simplesmente repetir padrões já consolidados nos clássicos álbuns anteriores. Não me parece que o autor tenha se desincumbido da tarefa de justificar a questão com o Napster, apesar do esforço do raciocínio – válido, em todo o caso – de desvincular a banda de questões meramente financeiras nesse aspecto. O autor não esconde que é um grande fã do Metallica, e isso fica muito claro quando coloca suas reservas em relação ao “Black Album” e quando trata de “Load”, “Reload” e “St. Anger”: o cara não mede palavras para dizer o quanto acha determinadas músicas muito ruins e fracas, e muitas das opiniões sobre as músicas de “Load” estou de acordo, diferentemente dos casos de “Reload” e “St. Anger”. Afinal, o autor é fã das músicas tipicamente thrash metal da banda, como são os casos de “Battery” e “Damage Inc.”, as quais jamais tive grande interesse (sempre curti as mais cadenciadas tipo “Sad But True” e até “Leper Messiah”, sem prejuízo de “Wherever I May Roam” e “Blackened” e “Harvester of Sorrow, mas para fins de pesquisa tenho dado atenção a essas faixas mais rápidas e brutais).

De volta para o início do livro, é dedicada mais atenção a Lars Ulrich do que a qualquer outro integrante. E parece que é o baterista que tem a história mais interessante, e tudo sugere para que o cara tenha o crédito de ser grande responsável pelo início das atividades da banda (o seu papel no desenvolvimento e crescimento para o sucesso já não é tão enfatizado). Lars é o tipo de cara que é fácil dizer que “é um babaca”, ou coisas do tipo. Afinal, o dinamarquês fala pelos cotovelos e gosta de emitir opiniões e muitas vezes gosta de aparecer mesmo (o famigerado “marketing pessoal”), inclusive para admitir que não é um grande baterista. Mas todos nós tivemos um amigo do tipo que fala o tempo todo e sempre inventa histórias mirabolantes do quanto vai ser bem sucedido e tal. Pois Lars era esse tipo de cara, antes da formação do Metallica: o cara enchia o saco de todo mundo, mas tinha facilidade para relações interpessoais, curtia bandas boas de som pesado, e divulgava o sonho de montar uma banda própria, apesar de sequer saber tocar o instrumento. É o tipo de cara que não se leva a sério depois de determinado tempo. E tem pessoas que realmente ficam na promessa. Outras passam do discurso para a ação, e Lars é desse último time. Quando viu a oportunidade para contribuir com uma faixa para a conhecidíssima coletânea “Metal Massacre”, o cara reportou-se a James Hetfield, e a partir daí registraram “Hit The Lights” e partiram para a consolidação do Metallica.

Os anos iniciais da banda são cuidadosamente retratados, e o autor oferece como bônus (para mim) um panorama do próprio thrash metal, facilitando a compreensão do que significa o termo e sua relação com outros do tipo black metal, death metal, speed metal, dentre outros. Aparentemente, tudo começou com Venom, e as bandas, a partir daí, disputavam para ver quem era a mais pesada e rápida. O Metallica eventualmente consolidou uma posição destacada, graças à precisão dos riffs de James Hetfield. Para mim nunca ficou bem claro o quanto Dave Mustaine participou da banda, e parecia impressionante o argumento de Lars de que Dave ficou nove meses na banda e não tocou em nenhum álbum de estúdio do Metallica. Entretanto, Dave compôs parte não desprezível do repertório inicial da banda, e se de um lado não ficou até a gravação de “Kill´em All”, de outro o cara era o guitarrista solo na lendária demo “No Life ´Till Leather”. Bem ou mal, Mustaine esteve presente em momentos fundamentais da fase inicial do Metallica. Seja como for, particularmente, entendo que os caras se deram bem ao decolar da base thrash metal e evoluir no seu próprio estilo de heavy metal, e talvez tenha sido isso o que diferenciou e destacou o Metallica das demais bandas contemporâneas como Anthrax, Testament, Exodus e o próprio Slayer, que é a única banda que ostenta um culto similar, mas que jamais conquistou vendas tão expressivas ou mesmo a agregação de fãs não exclusivamente metaleiros.

A leitura é muito fácil e informativa, e suas 400 páginas correm com fluência. Resta-nos ouvir com renovado interesse a discografia da banda (especialmente o “Death Magnetic”, mas sem prejuízo do “Master of Puppets”, o “Ride the Lightning” e o “...And Justice For All”, sobretudo no nosso caso, quando se avizinha a confirmação da apresentação do Metallica em Porto Alegre.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ensaio The Osmar Band: "Siebenundzwanzig" 27.10.2009

Após duas semanas competitivas e às vésperas de uma semana de férias do Marcelo, finalmente tivemos a oportunidade de abrir o barril holandês adquirido ainda na época do meu aniversário. O mais importante para mim, particularmente, era a estreia do meu novíssimo “bebê chorão”. Ainda falta muito para dominá-lo, e encontrar as melhores maneiras de torná-lo útil nas composições, mas é mais uma opção para ampliar os sons da banda em termos de guitarra. Com o Alemão no Triton tocamos algumas novas e antigas: a do nome de bairro infame, a do ex-baixista, um blues antigo sobre um item vendido nos setores de bazar dos maiores supermercados (em F e C). O Marcelo tinha uma letra no laptop e mandei ver uns acordes E com pausas e notas abafadas meio Rage Against the Machine, “bebê chorão” bombando o tempo todo, aos quais interpolei um riff Led Zeppelin com as consagradas notas E-D-B-A-G-E na 5.ª e 6.ª cordas. Foi uma composição verdadeiramente instantânea, pois o tempo de escrevê-la foi o tempo de tocá-la. Em seguida o Alemão tocou na guitarra acordes G-C-D e o Marcelo cantou a mesma letra. O Alemão mandou um timbre limpo e tocamos uma com letra impublicável nos acordes G e C9; nesta utilizei ambos os captadores para um timbre mais aveludado, contrastando com o timbre mais agudo do Alemão, e deixar o som mais cheio. Lembrei de registrar que descobri porque o som do Alemão é tão grave quando ele coloca distorção: o botão de tom fica no zero, ao estilo dos jazzistas tipo Joe Pass (embora estes toquem com timbre limpo), enquanto que eu e os demais guitarristas de rock deixamos o botão de tom no dez, da mesma forma que o botão de volume. Então é mais um recurso para mudar o som das guitarras. O Marcão e o Marcelo lembraram de uma que tinha uma letra que era uma espécie de “heavy alemão/russo”, na qual fiz uma base estilo “Immigrant Song” pela utilização dos acordes F#-E (A nas passagens entre um e outro) e refrão A-B-F#. Tocamos uma vez na forma original, e depois o Alemão conseguiu um timbre legal no Triton e acompanhei com um timbre Brian May; assim, o Alemão fez os acordes no Triton e eu fiz as melodias na guitara, de modo que a música ficou bem diferente da versão original e muito mais interessante, na minha opinião (embora tenha a impressão de que o Marcelo e o Marcão também curtiam a versão original). Nas músicas mais antigas, como a do ex-integrante, me vali do recurso de não acompanhar os acordes, e sim fazer mini-solos e melodias na guitarra, e nessas condições mandei ver muitos bends e licks blueseiros. Já estou sentindo a necessidade de aumentar o meu repertório de licks, então estou pesquisando a audição de guitarristas consagrados (Gilmour, Clapton, Hendrix).





















terça-feira, 10 de novembro de 2009

CDs do Kiss - Parte I "Animalize" (1984)

Já tive duas oportunidades para escrever sobre um dos meus discos favoritos do Kiss (e de hard rock em geral), o “Animalize” de 1984. Não por acaso, trata-se do primeiro álbum da banda que tomei contato, nas férias de inverno de 1993. A primeira resenha foi logo no começo deste blog (2003), quando me propus a escrever sobre os “discos obscuros” do Kiss. Anos depois, numa série sobre “discos essenciais” (2004), registrei as opiniões que me levavam a considerá-lo como tal. Convém, então, reproduzir esses comentários iniciais para inaugurar a série de resenhas sobre discos do Kiss (não perdi a oportunidade para atualizar algumas anotações, devidamente marcadas pela chave []):

26.07.2003 - ANIMALIZE – lançado em 1984, segue a linha hard rock dos discos anteriores (CREATURES OF THE NIGHT e LICK IT UP), mas sugere o som que viria nos discos posteriores. Mark St. John, um desconhecido professor de guitarra, entra no lugar de Vinnie Vincent, despedido em razão de sua personalidade extravagante. O racha da banda entre Gene Simmons e Paul Stanley é bem marcante – basicamente, um não participa das faixas compostas pelo outro. Nas músicas de Paul, quem gravou o baixo foi Jean Beauvoir; nas de Gene, quem gravou guitarras foi o próprio ou então Mark. Cada um produziu suas próprias faixas. Entendo que a produção desse disco é muito boa – [sobretudo diante do fato de que, em regra,] os discos de estúdio do KISS tendem a não refletir as performances das apresentações ao vivo. No caso de ANIMALIZE, as músicas aparecem muito bem, e resistem ao teste do tempo (com exceção dos solos de Mark, que, pelo timbre, soam extremamente datados). O bumbo da bateria também ficou prejudicado (mal se ouve o bumbo duplo em UNDER THE GUN).

As melhores músicas de ANIMALIZE são as de Paul. I´VE HAD ENOUGH abre o disco de forma vigorosa (como geralmente acontece nos discos da banda). Muito boa letra, riffs pesados e rápidos – gosto muito dessa música. Destaque para Eric Carr, numa levada bem criativa
[hi-hat, caixa e bumbo, além da expressiva utilização dos ton-tons nos rolos], acompanhando o riff e desenvolvendo nos versos. Aqui se encontra o melhor solo gravado por Mark. Há um interlúdio antes e depois do solo, muito bem sacado [pois cria uma tensão bem legal que se resolve num grito bem alto de Paul e na volta para o refrão].

HEAVENS ON FIRE é o hit que ajudou a alavancar as vendas do álbum (teve até um vídeo promocional, bem veiculado pela MTV
[e é notável por servir como única "apresentação" oficial de Mark St. John com a banda]). Extremamente simples, sedimenta a parceria entre Paul e Desmond Child (o mesmo que compôs músicas para Aerosmith, Bon Jovi e Ricky Martin [- e para o próprio Kiss, como "I Was Made For Lovin´ You"]).

BURN BITCH BURN começa com um riff bem pesado e traz Gene numa letra jocosa, sobre mulheres e sexo, bem ao seu gosto. Eric acompanha muito bem na bateria.

GET ALL YOU CAN TAKE é a música mais fraca de Paul nesse disco
[agora já me acostumei e até curto a faixa]. No riff principal (que serve de refrão) há uma ‘virada’ característica (veja THE OATH e KEEP ME COMIN). Os vocais de Paul estão extremamente agudos (high-pitch).

LONELY IS THE HUNTER começa com um riff interessante, mas exaustivamente repetido durante a faixa. Curiosidade: inexplicavelmente o solo é de Bruce Kulick (mas isso não faz a menor diferença, pois é bem similar aos registrados por Mark).

UNDER THE GUN é a correria de Paul no disco. Eu gosto dessas músicas rápidas de Paul – dão uma equilibrada no disco. Fantástico o final da música, com Mark correndo atrás da bateria.
[Da mesma forma que em "I´ve Had Enough", há um interlúdio muito bem composto antes dos solos. Até hoje não sei tocar essa parte e nem imagino como tocaria, apesar de já ter prestado bastante atenção nos movimentos da mão esquerda de Paul naquele vídeo da "Animalize Tour".]

THRILLS IN THE NIGHT é outra que eu gosto bastante. O som remete totalmente aos anos 80, mas a música é muito bem feita. Eric é o maior destaque, acompanhando os versos no tom
[o cara preticamente não utiliza a caixa aqui], de maneira bastante original. O solo de Mark é bom também, pertinente à música (dentro do possível). Aqui, Paul também é muito feliz nos interlúdios (antes e depois do solo).

WHILE THE CITY SLEEPS e MURDER IN HIGH HEELS são de Gene e fecham o disco. Nada memoráveis: ambas apresentam boas idéias, mas pecam pela falta de objetividade – ficam girando em torno do riff, não apresetando nada inovador, ou que valha alguma audição mais atenta.

Concluindo: honestamente, admito que ANIMALIZE é um disco apenas razoável
["Animalize" é do car@lho, "honestamente admito" que é um baita disco, isso sim]. Mas que eu gosto bastante, particularmente (há pelo menos 3 grandes músicas, todas de Paul: I´VE HAD ENOUGH, UNDER THE GUN e THRILLS IN THE NIGHT, sem contar o hit HEAVENS ON FIRE). Vendeu bem na época, e marcou o último disco [até o "Revenge" de 1992] em que os integrantes apareceram nas fotos do encarte vestindo preto: a partir desse disco, a banda se tornaria irremediavelmente mais uma da onda hair metal que assolou o mundo musical nos anos 80. Esse disco representou também o início da fase improdutiva de Gene, que já se mostrava mais comprometido com sua (insípida) carreira cinematográfica. Dali em diante, Paul é quem iria comandar o destino musical da banda, tentando manter sua condição entre as bandas top, com resultados bastante irregulares.”

“02.11.2004 - Animalize é outro que já foi objeto de comentários neste blog, de modo que eu me reporto a todas as considerações oportunamente expendidas. Aqui cabem observações meramente complementares.

1993 foi o ano em que (aqui em casa) compramos um aparelho de cd. Na época (junho), locação de cds só na TV3 e na Vídeo World (uma praticamente ao lado da outra). A banda que eu estava viciado na época era AC/DC, de modo que fiquei encantado quando encontrei, na Vídeo World, em julho daquele ano, o cd DIRTY DEEDS DONE DIRT CHEAP (importado). Também encontrei, importado, o disco essencial epigrafado. Já havia lido algo sobre o Kiss, num catálogo de cds da Revista Bizz, além de ter as minhas próprias lembranças de infância (quando a banda esteve no Brasil em 1983).

E desde a primeira vez que ouvi, gostei de ANIMALIZE (não tanto quanto agora), gravando-o inteiro no lado B de uma fita de 90 minutos (o lado A foi ocupado por DIRTY DEEDS). As músicas que eu julguei as melhores na época, as tenho como melhores até hoje: I´VE HAD ENOUGH (melhor riff da banda), UNDER THE GUN e THRILLS IN THE NIGHT. Só que, durante algum tempo, eu confundia os vocalistas: achava que Paul era Gene e Gene era Paul. "Nossa, esse Gene canta muito!". E pior: achava que Paul era o guitarrista solo e Mark St. John, o guitarrista base.

Explica-se: na época, já sabia que Paul era da formação original - e assim, "raciocinei" que seria muito mais "lógico" que o guitarrista base fosse o substituído, pois, afinal, os solos eram muito "difícieis", e eu imaginava ser "impossível" a substituição de um cara que tocasse "tão bem" (tipo, que alguém tivesse de substituir um membro da formação original e tirar todos os solos antigos e tal)
[essa confusão só se desfez quando tive contato com o "Alive III", em julho de 1993, conforme resenha a seguir]. Enfim, mal sabia que 11 anos depois, ainda estaria ouvindo este e os outros discos essenciais da banda.

Não é segredo que esse disco, além de essencial, é um de meus favoritos de todos os tempos, pelos seguintes fatores: (a) um grande disco do Kiss, registrado em época desfavorável para a banda - 1984; (b) boas músicas, especialmente as de Paul, com as guitarras no melhor estilo hard rock dos anos 80; (c) a música I´VE HAD ENOUGH; (d) a participação brilhante de Eric Carr na bateria (as levadas de I´VE HAD ENOUGH e THRILLS IN THE NIGHT são matadoras); (e) único disco com Mark St. John, cuja meteórica passagem pela banda é motivo de muito interesse (pessoalmente falando) - e o cara, realmente, tocava muito bem
.”

Bem, para completar, registro que o Giuliano adquiriu o CD importado na Boca do Disco em 1995, e acho que no ano seguinte fizemos uma troca (por um bootleg do Metallica) e agora o CD está comigo. Ainda avalio a conveniência e oportunidade de adquirir a versão remasterizada (só importado: até quando??), pois o "Creatures of the Night" remasterizado tem um som espetacularmente melhor que o da versão anterior. Deve valer a pena, sobretudo porque é um disco que não canso de ouvir - e isso já faz 15 anos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Grêmio 1x1 São Paulo (Brasileirão 2009, Estádio Olímpico, 34.ª rodada, 04.11.2009, 21h50min)

A campanha do time de Autuori fora de casa é uma piada e já nem admira mais a derrota, mesmo para um time que frequenta a zona do rebaixamento (talvez por isso, um time com vontade de vencer). O segundo gol foi contra de Rafael Marques.

Santo André 2x0 Grêmio - 33.ª rodada. Estádio: Bruno José Daniel, Santo André (SP) 01/11/2009 - 18h30.

SANTO ANDRÉ: Neneca; Rômulo, Cesinha, Vinicius Orlando e Ávine (Élvis); Ricardo Conceição, Marcelinho Carioca, Camilo e Júnior Dutra (Fernando); Wanderley (Leandrinho) e Nunes. Técnico: Sérgio Soares.

GRÊMIO: Victor; Thiego (Herrera, Intervalo), Rafael Marques, Réver e Lúcio (Fábio Santos); Adilson, Túlio, Tcheco e Douglas Costa (Renato Cajá); Róberson. Técnico: Paulo Autuori.

Árbitro: Wagner Tardelli Azevedo (SC), Ângelo Rudimar Bechi (SC) e Luís Alberto Kallenberger (SC). Cartões amarelos: Ricardo Conceição, Ávine (STO); Túlio, Tcheco (GRE). Cartões vermelhos: Roberson, 3%27/2ºT (GRE). GOLS: Nunes, Rafael Marques contra).


Agora as notícias dão conta de possível retorno de Autuori ao futebol árabe. Além disso, logo após o jogo contra o Santo André, o presidente e a direção deram entrevistas sugerindo que para 2010 será formado um grupo com jogadores com mentalidade vencedora. Todos entenderam que o recado foi para Tcheco, e há muito me parece que Tcheco é um cara que anda sonolento em campo além de tremer nas horas decisivas (final da Libertadores 2007 e reta final do Brasileirão de 2008), então me causa espécie que há uma ou duas semanas atrás se dizia que a prioridade era a renovação com o camisa 10 para mais temporadas. Em todo o caso, diz-se que Hugo - atualmente no São Paulo - está garantido para a próxima temporada, e que Tcheco interessa ao Corinthians de Mano (acho que Tcheco vai jogar muita bola como parte do elenco, e não como principal jogador como é o caso do Grêmio).

Temi pela perda da invencibilidade de mais de ano no Estádio Olímpico para o São Paulo, que briga pela ponta de cima da tabela do Brasileirão 2009. Porém, havia esperança pois Rogério Ceni notoriamente fraqueja nos jogos contra times gaúchos.

O Grêmio estava bem, embora o São Paulo estivesse sólido em campo. Após cobrança de falta pela direita, Rafael Marques aproveitou de cabeça e fez o Grêmio sair na frente.

gol de Rafael Marques



Poucos minutos depois, porém, o Grêmio sofreu o empate: Dagoberto chutou e a bola desviou em Rafael Marques. A partir daí o 1.º foi muito ruim para o time de Autuori, e o pior em campo foi Lúcio, que errou todos os passes. Não por acaso, Fábio Santos entrou no lugar do lateral-esquerdo, após longo período afastado por lesão. Para completar, a péssima atuação do árbitro já era destaque negativo desde os primeiros minutos de jogo (sobraram cartões amarelos por reclamação para o Grêmio). Pelo lado positivo, Adílson e Thiego tiveram boas apresentações.

O Grêmio voltou melhor do invervalo. E o jogo mudou completamente a partir do momento em que o árbitro resolveu dar um descanso para os jogadores gremistas, e dar cartões para os são-paulinos. Borges foi expulso (segundo cartão amarelo), em seguida Dagoberto fez falta por trás (cartão vermelho direto). Autuori mandou Perea e Herrera a campo e o Grêmio ficou com 4 atacantes.

Até o final do jogo foi só ataque do Grêmio, e Rogério Ceni protagonizou ceras dignas de Gauchão (o goleiro demonstrou nervosismo ao errar duas vezes a resposição de jogo chutando tiros de meta para a lateral). Os atacantes gremistas, no entanto, não tiveram competência para fazer o gol da vitória. Quatro chances de ouro foram perdidas por Perea e cia, e Rogério Ceni ainda defendeu uma no final. Faltando poucos minutos para o apito derradeiro, Jean foi expulso. O São Paulo, então, arrancou um empate com três jogadores a menos.

O próximo jogo será contra o Cruzeiro, que briga por vaga no G4, no Mineirão. Desde logo antecipo a previsão de que Victor será o melhor em campo.

Grêmio 1x1 São Paulo - 34.ª rodada, 04.11.2009, Estádio Olímpico.

GRÊMIO: Victor; Thiego (Perea, 26 min do 2º), Rafael Marques, Réver e Lúcio (Fábio Santos, int); Adilson, Tulio (Herrera, 35 min do 2º), Tcheco e Souza; Douglas Costa e Maxi López. Técnico: Paulo Autuori.

SÃO PAULO: Rogério Ceni; Renato Silva, André Dias e Miranda; Jean, Arouca (Hugo, 43 min do 2º), Jorge Wágner (Marlos, 30 min do 2º), Hernanes e Júnior César; Dagoberto e Washington (Borges, 19 min do 2º). Técnico: Ricardo Gomes.

Gols: No primeiro tempo, Rafael Marques (G), aos 24 minutos e Dagoberto (SP), aos 31. Cartões amarelos: Tulio, Réver, Maxi López, Tcheco, Souza (G), Jean, Borges, André Dias (SP). Expulsões: Borges, Dagoberto (SP). Renda: R$ 201.098,00. Público: 13.982 (11.870 pagantes). Arbitragem: Jailson Macedo Freitas (BA), auxiliado por Erich Bandeira Faria (PE-Fifa) e Luiz Carlos Silva Teixeira (BA).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Resultado da enquete "Melhor disco dos Beatles"

Agradecendo aos votantes, posto o resultado final da enquete para registro.

Com 5 votos e disparado em 1.º lugar: "Abbey Road". Ainda não escrevi sobre esse álbum, o último gravado mas penúltimo a ser lançado pelo quarteto. Talvez a preferência se deva a uma clássica faixa de Lennon ("Come Together"), à possivelmente melhor composição de Harrison ("Something"), à outra composição universalmente conhecida de Harrison ("Here Comes the Sun"), e à lendária reunião de músicas incompletas que encerra o álbum.

Empatados em 2.º lugar, com 2 votos cada, ficaram "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" e "The White Album". Natural que esses discos fossem bem votados, pois cada um a sua maneira foram clássicos e definitivos para a banda e para a música rock e pop em geral.

Receberam um voto "Please Please Me", "Magical Mystery Tour" e "Let It Be" (fico imaginando quem votou no "Magical (...)" visto que é um disco diria não-essencial dos Beatles).

Não cheguei à conclusão definitiva para dar o meu voto... ficaria entre "Let It Be" (fiz uma resenha há alguns meses atrás, com a versão anterior não-remasterizada - ainda estou avaliando a conveniência de adquirir novamente esse disco na nova versão) e "The White Album", sem prejuízo, ainda, de "Revolver", "Rubber Soul" e "A Hard Day´s Night".

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

The Beatles remastered - "The Beatles aka The White Album" (1968)

Em viagem de algumas semanas à Índia, os Beatles compuseram a maior parte do material que viria a formar o próximo disco de estúdio. Tomou-se a decisão, talvez sem precedentes, de lançar um álbum duplo com todas as 34 faixas, ao invés de eleger as melhores e fazer um disco simples (as demais seriam distribuídas posteriormente, de diversas formas - singles, disco de sobras de estúdio, ou simplesmente inseridas em discos posteriores). Prevaleceu a ideia de liberar tudo para encerrar o ciclo e não deixar nada para trás. Até a capa rende assunto: depois de "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", cheia de referências, optou-se por uma capa minimalista, com um fundo branco e o nome da banda em relevo. Não por acaso, o disco "The Beatles" é mais conhecido como "The White Album". O primeiro disco do "Álbum Branco" começa em alto e bom ritmo com "Back in the U.S.S.R.", um exercício de McCartney sobre o som de Beach Boys e uma homenagem a Chuck Berry ("Back in the U.S.A.". As músicas mais elétricas e rocker dos Beatles costumam ser muito boas, e esse álbum duplo contém várias clássicas. Indiscutivelmente que um dos destaques é uma faixa com título ridículo e refrão tosco ("Ob-La-Di, Ob-La-Da" e "Ob-La-Di, Ob-La-Da life gos on bra/Lala how the life goes on"). O que interessa, no entanto, é que se trata de mais uma composição melódica e espetacular de McCartney, conduzida pela linha de baixo pulsante. "The Continuing Story of Bungalow Bill" parece aquelas músicas compostas de gozação, mas é interessante a linha de baixo com slides longos. Além disso, conforme a wikipedia, a introdução de violão flamenco, na verdade, foi executada utilizando-se um preset de Mellotron. Uma das melhores e mais conhecidas composições de George Harrison foi registrada nesse àlbum branco: "While My Guitar Gently Wheeps". O início é portentoso com um piano insistente; a faixa é conduzida por violões, e pontua em toda a faixa solos de guitarra. Notoriamente Eric Clapton fez participação especial (não há nenhum virtuosismo - os solos são com pentatônicas, muitos bends e slides); o amigão de Harrison, além de mandar ver na "slow hand", ainda serviu para desanuviar o clima durante as gravações. Afinal, nessa época Yoko Ono começou a se fazer (oni)presente, para desconforto dos demais (exceto Lennon e seu macaco). Lennon declarou oportunamente que em "White Album" estão algumas de suas melhores composições, e conforme o "Rough Guide" dos Beatles que estou lendo em ritmo lento, "Happiness is a Warm Gun" é uma das suas favoritas (conforme o wikipedia, é a favorita de McCartney nesse disco). A letra é apta a muitas interpretações, e nem vou entrar nesse terreno complicado; acho bom o timbre da voz de Lennon na parte "Mother Superior jump the gun", bem grave e distinto. A faixa é característica por suas múltiplas e sofisticadas mudanças de andamento, que seriam típicas de bandas de rock progressivo. Realmente é complicado acompanhar essas mudanças de 4/4, 5/4, 9/8 etc etc, tornando a audição intrigante. "Martha My Dear" tem instrumentação bem sofisticada (em alguns momentos me lembra Chris Squire no baixo), com melodias diferentes no piano, na voz, nos instrumentos de sopro e baixo, na parte inicial, que alterna com uma outra parte mais rápida. Particularmente não gosto de músicas nas quais o vocalista canta o quanto está cansado de alguma coisa... esse tipo de lamento é muito fácil de fazer. E Lennon faz exatamente isso na faixa "I´m So Tired": em todos os versos o cara inicia com "I´m soooooo tired". Aparentemente ele canta sobre o período na Índia, que teria sido rico em momentos tediosos. Mas francamente não preciso ouvir o cara dizer o quanto ele está entediado: "vai arrumar alguma coisa pra fazer com a grana que tem no banco, então". No vídeo que vem de bônus com o CD remasterizado há uma cena da gravação de "Blackbird": é apenas McCartney com um violão, batendo os sapatos no chão, marcando o ritmo como metrônomo. A melodia e os acordes são muito bonitos (o mesmo se pode dizer de "Mother Nature´s Son" do CD2). O nome da faixa "Rocky Raccon" poderia indicar uma composição fraca, mas é muito boa, com interpretação vocal muito boa: McCartney imita uma espécie de sotaque do sul dos EUA para uma faixa que depois da introdução de acordes se torna um folk das antigas (quando ingressa a bateria e o honk-tonk piano executado por George Martin). As músicas cantadas por Ringo Starr são geralmente bem agradáveis, e aqui também é o caso com "Don´t Pass me By". "Parabéns a Você" parece que é a música que mais produz direitos autorais, e é realmente universalmente conhecida, além de ter boa melodia. É o tipo de música imbatível. Os Beatles não se tremeram e fizeram uma música de aniversário bem rocker e muito boa, com guitarras elétricas e distorcidas: "Birthday" abre o segundo disco do álbum branco e é muito boa. Conforme a wikipedia, é a única faixa no disco na qual Lennon e McCartney dividem os vocais principais, sendo que Paul participa com registros de voz bem altos. "Yer Blues" é um bom exercício de blues, com as típicas pausas de guitarra e bateria entre os versos. O andamento todo é um blues bem familiar, e depois das paradas ainda segue para um outro andamento típico e bem faceiro de blues. Há muito que conheço de nome "Helter Skelter" e o quanto bandas de hard rock fazem covers e tudo mais. Pois de fato é uma excepcional e memorável composição de McCartney, praticamente uma gênese do hard rock pelos acordes com guitarras bem distorcidas e o refrão com um lick descendente dobrado no baixo e guitarra. Aparentemente o baixista queria compor uma música bem barulhenta, e a sessão de gravação resultou em quase 20 takes, tendo sido selecionado o último para o disco, e essa é a explicação para o desabafo de Ringo ao final "I´ve got blisters on my fingers". "Revolution 1" é a versão acústica para a que apareceu de forma elétrica no single "Hey Jude". A melodia da voz é muito boa, e acompanha bem os versos. "Honey Pie" lembra as músicas de Paul em "Sgt. Peppers" tipo "Fixing a Hole" e "Getting Better", dentre outras. "Revolution 9" é um conhecido exercício dos Beatles, capitaneados por Lennon, nos conceitos de música concreta, e um dos mais remotos exemplos de "sampling". Além disso, conforme a wikipedia, serviu como mais um dos fatores que levaram a alguns acreditar na lenda da morte de Paul. "The White Album" é um notável disco dos Beatles, e marcou provavelmente o início do fim do quarteto fabuloso.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Grêmio 3x1 Avaí (Brasileirão 2009, 32.ª rodada, Estádio Olímpico, 28.10.2009, 21h)

Sem Maxi Lopez e Tcheco e com Perea, Douglas Costa e um meio-campo com Adílson, Túlio e Rochemback, um empate no Grenal do Beira-Rio seria um baita resultado. Só não ocorreu porque D´Alessandro acertou um chute de fora da área logo no começo do jogo - a bola quicou no gramado e Victor falhou, conforme opinião generalizada (ainda tenho dúvidas, mas o próprio goleiro admitiu). De qualquer maneira, atuações pífias de Herrera (entrou no intervalo no lugar de Douglas Costa), Rochemback (o cara trazido de Portugal tem jogado muito pouco), Perea e Souza, dentre outros.

Inter 1x0 Grêmio - 31.ª rodada, 25.10.2009, 16h, Beira-Rio.

INTER: Lauro; Daniel, Bolívar, Índio e Kleber; Sandro, Guiñazu, Giuliano e D%27Alessandro (Andrezinho); Taison (Marquinhos) e Alecsandro. Técnico: Mário Sérgio.

GRÊMIO: Victor; Mário Fernandes, Léo (Rafael Marques), Réver e Lúcio; Adilson, Túlio (Renato), Rochemback e Souza; Douglas Costa (Herrera) e Perea. Técnico: Paulo Autuori.

Árbitro: Wilson Luiz Seneme (SP), Ednilson Corona (SP) e Nilson de Souza Monção (SP). Cartões amarelos: Giuliano (INT); Souza (GRE); Guiñazu (INT); Túlio (GRE); Adilson (GRE). Cartões vermelhos: Rafael Marques (GRE). Gol: D'Alessandro (3'/1ºT)

O mau resultado no Beira-Rio serviu para colocar Herrera na geladeira. Além disso, diz-se que o presidente gremista tenta agregar um assessor ao seu dirigente de futebol, para evitar decisões equivocadas (por exemplo, Gilberto - que foi para o Cruzeiro -, Marcelinho Paraíba - que foi para o Coritiba -, e Paulo Baier - que foi para o Atlético-PR -, todos admitiram publicamente que pretendiam jogar no Grêmio, mas que foram rejeitados por serem supostamente velhos ou em fim de carreira. Foram trazidos, então, Lúcio e Rochemback, que não têm atuado bem, ao contrário do trio de "veteranos").

Achei que já tínhamos visto um péssimo 1.º tempo no jogo passado no Olímpico contra o Coritiba. Mas o time de Autuori se superou e nessa partida contra o Avaí de Silas (que teve uma sequencia muito boa de vitórias há algumas rodadas e chegou a postular o G4) teve uma atuação despicienda. Rochemback foi, seguramente, o pior em campo, e de maneira inédita a atuação do time gremista melhorou significativamente após sua expulsão.

O jogo parecia fácil no início. A inoperância do time da casa é que tornou as coisas complicadas, e o Avaí só deixou de fazer gol porque seus atacantes não tiveram competência no lance decisivo. Bom para o Grêmio que Eduardo Martini continua o mesmo e cometeu pênalti em Perea, convertido por Tcheco com paradinha e tudo.

1.º gol - Tcheco (de pênalti)



O 2.º tempo foi muito melhor. Douglas Costa entrou no lugar de Perea, que saiu de campo irritado. Em rápido contraataque, Maxi Lopez marcou o seu e comemorou bastante.

2.º gol - Maxi Lopez



Em seguida, Douglas Costa roubou uma bola na linha lateral direita do meio-campo e partiu para a linha-de-fundo, cruzando para Souza que teve calma apra concluir e fazer o 3.º gol. Souza deu todos os créditos do gol para o aspirante a craque - o cara só precisa de mais jogadas desse tipo para confirmar o que sempre se disse a seu respeito.

3.º gol - Souza (cruzamento de Douglas Costa)



Victor atuou com uma camisa com o n.º 100 às costas (foi o seu 100.º jogo com a camisa gremista) e fez boas defesas o jogo inteiro, tentando se redimir da atuação no jogo passado. Não houve como evitar mais uma vacilada da defesa do Grêmio (os caras estavam dormindo no 1.º tempo, e o time visitante não aproveitou...) e o Avaí fez o gol de honra.

A arbitragem conseguiu ter pior atuação que os times em campo, distribuindo cartões para os gremistas, eventualmente expulsando Rochemback, e deixando de coibir o antijogo dos visitantes.

Seja como for, mais uma vitória em casa na regular campanha gremista (talvez seja a campanha mais regular do campeonato: é quase certo que o Grêmio ganha em casa e perde ou empata fora). Próximo jogo é fora, contra o Santo André, que frequenta a zona do rebaixamento.

Grêmio 3x1 Avaí - 28.10.2009, quarta-feira.

GRÊMIO: Victor; Mário Fernandes (Saimon), Thiego, Réver e Lúcio; Adilson, Fábio Rochemback, Tcheco e Souza (Maylson); Perea (Douglas Costa) e Maxi López. Técnico: Paulo Autuori.

AVAÍ: Eduardo Martini; Rogélio, Emerson e Augusto (Fabinho Capixaba); Luiz Ricardo (Jandson), Ferdinando, Léo Gago, Marquinhos, Caio e Eltinho; Leonardo (Cristian). Técnico: Silas

Gol: No primeiro tempo, Tcheco (G), aos 30 minutos. No segundo, Maxi López (G), aos 15, Souza (G), aos 17 minutos e Emerson (A), aos 32. Cartões amarelos: Perea, Maxi López, Adilson, Souza, Tcheco (G), Eduardo Martini, Augusto, Eltinho (A). Expulsão: Fábio Rochemback. Arbitragem: Péricles Bassols Cortez (RJ, asp.Fifa), Hilton Moutinho Rodrigues (RJ/Fifa) e Marcelo Braz Mariano (RJ). Renda: R$ 118.733. Público: 9.391 (8.271 pagantes)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

The Beatles remastered - "Magical Mystery Tour" (1967)

É comum que grandes artistas lancem coletâneas, ou discos ao vivo, ou álbuns com sobras de estúdio. No caso dos Beatles, poucos dias após soltarem “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, o quarteto já registrava novas composições. Seis delas foram reunidas para um grande EP, lançado para coincidir com o Natal de 1967 e servir de trilha sonora para o filme homônimo exibido pela TV britânica. Nos EUA, a gravadora entendeu inaceitável o formato e resolveu lançar o LP com o acréscimo de músicas compostas anteriormente e lançadas em formato single. Esse é o formato que prevaleceu, e assim “Magical Mystery Tour” é considerado um álbum dos Beatles. A versão que tenho em casa é a única não adquirida na Cultura/Saraiva, pois veio de Londres em viagem recente do meu pai (valor em euro está no adesivo colado na capa do CD). O encarte, cheio de fotos, dá conta da fase psicodélica da banda. É forçoso admitir que, apesar de algumas músicas clássicas, o disco não é dos mais fortes da discografia do quarteto. A faixa-título inicia os trabalhos e contém várias mudanças de andamento, e no final há uma sugestão de uma jam que poderia ser muito interessante. “The Fool on the Hill”, de McCartney, é a quarta de um quarteto de músicas belíssimas que identifico em alguns discos; as outras são “Nowhere Man”, “If I Fell” e “And I Love Her”. O que há de comum, em todas, é a excepcional melodia dos vocais, marcante e memorável. “Flying” é um instrumental dispensável, com extensa utilização do Mellotron. “Blue Jay Way” é daquelas que nos fazem dar razão a George Martin e McCartney, que não costumavam abrir muito espaço para composições de Harrison (evidentemente que o guitarrista era competente para fazer clássicos tão bons quanto Lennon & McCartney, mas aqui não é o caso). “Your Mother Should Know” é outra das boas de Paul, e “I Am the Walrus” parece ser bastante popular e é cheia de histórias (convém ouvir e prestar atenção na utilização, conforme a Wikipédia, de todos os acordes maiores ou com sétima – A, B, C, D, E, F, e G -; além disso, Lennon tomou notícia de que algumas letras dos Beatles serviam para aulas escolares, então o cara resolveu criar os versos mais confusos e incoerentes possíveis). É fácil perceber que o modo de cantar de Lennon influenciou grandemente as bandas de brit pop dos anos 1990. “Hello, Goodbye” é das composições faceiras de McCartney, e me faz lembrar seu trabalho solo desenvolvido nas décadas seguintes. Das quatro últimas faixas do disco, três são muito conhecidas: “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” foram lançadas como single juntamente com o disco “Sgt. Peppers”. A primeira tem uma base muito boa e sinistra, contrastando com os vocais melodiosos (“straw-berry-fi-elds-fo-re-ver”). A segunda tem versos saborosos. “All You Need is Love” é universalmente conhecida pelo refrão, ao qual todos atribuem mensagem pacifista típica de Lennon. Mas a música é fraca, particularmente, embora admita que a estrutura da faixa é complexa, com múltiplos andamentos diversos do tradicional 4/4 (conforme a Wikipédia, é a única faixa, ao lado de “Money” do Pink Floyd composta em andamento 7/4 a alcançar o top 20 nos EUA). “Baby You´re a Rich Man” não é clássica e também é fraca, com refrão repetindo o título da música.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Resenha de livro - "The Rough Guide to Jimi Hendrix" (Richie Unterberger)

A afinidade com o formato do “Rough Guide” sobre bandas e músicos já se verificou desde a leitura do primeiro volume que encontrei, dedicado ao Pink Floyd. Depois deste, li o do Led Zeppelin, sobre Heavy Metal (ainda não finalizei), dos Stones, e dos Beatles (ainda não finalizei). Em regra, é bom ler esses livros sobre bandas consagradas em relação às quais ainda não tenho conhecimento profundo, pois abrange biografia, resenhas de discos e melhores músicas, fatos pitorescos, projetos paralelos, dentre outras coisas particulares. Então não tive dúvidas de trazer para casa o “Rough Guide” do Jimi Hendrix – que nem sabia da existência – quando localizei na Cultura por menos de 30 pila. E indiscutivelmente é o melhor que já li da série.

Diferentemente do “Rough Guide” do Zeppelin, dos Stones e dos Beatles, a leitura guia sobre Hendrix é bem fluida e pacífica, pois o autor tem estilo simples e direto de escrever. Então, é o melhor de ler de capa-a-capa. Basicamente todas as lendas que já tinha ouvido sobre Hendrix são tratadas no livro (p. ex., a de que se eu encontrasse Hendrix, na época, e dissesse que toco guitarra e componho umas músicas, ele me convidaria para uma jam no Eletric Lady), e ainda há o acréscimo de várias informações relevantes (antes da fama, o cara havia feito parte da banda de apoio de vários artistas, dentre os quais Little Richard).

O autor preza bastante pela formação do Experience, e até faz pouco caso (ainda não sei dizer se acertadamente; provisoriamente, entendo que não) da Band of Gypsies (que só lançou o registro do mesmo nome, ao vivo). Via de regra, esses rough guides se destinam ao grande público, e não exclusivamente a músicos, mas há algumas informações importantes sobre música durante o texto. Além disso, há um notável capítulo dedicado a tentar esclarecer a razão de Hendrix ter sido um espetacular guitarrista: o autor, então, fala das técnicas guitarrísticas (as alavancadas, p. ex.), dos instrumentos e equipamentos (desde a guitarra Fender Stratocaster, até os amplificadores Marshall e os efeitos fuzz, phaser/flanger, univibe, e o clássico wah-wah), e até das mãos de Hendrix (que, por serem grandes – apesar do cara não ter altura acima da média -, facilitariam a execução de técnicas inusitadas ou de outra maneira não possíveis, como utilizar o polegar da mão direita – no meu caso, que sou destro, esquerda - para tocar as cordas mais graves, ou fazer bases e solos simultaneamente). A par disso, há as tradicionais resenhas dos discos, aparentemente adequadas; como Hendrix lançou apenas quatro discos oficiais, o autor se esmerou na garimpagem do sem número de coletâneas e bootlegs, indicando os mais preciosos.

Digno de atenção são os registros dos bastidores dos shows históricos (Monterey, Woodstock, dentre outros). No decorrer do texto aparecem sugestões de algumas pessoas sobre qual caminho Hendrix percorreria não fosse sua morte prematura, e felizmente o autor não se dedica fortemente a esse exercício místico. Tanto quanto outros artistas, entendo que Hendrix teria uma fase de excepcional criatividade (a inicial), seguido de períodos de forte declínio (possivelmente alternaria o lançamento de discos bons), e dependendo do seu estado físico/mental e de seus compromissos empresariais, poderia nos dias atuais ser bem sucedido como Ozzy Osbourne ou os Stones (Keith Richards e Mick Jagger), ou vítima de suas circunstâncias como James Brown. Fui atrás dos CDs do guitarrista (tenho apenas o “Band of Gypsies” e o duplo de “Woodstock”) e incrivelmente não encontrei em lugar algum, e me questiono se esse desaparecimento das prateleiras não quer significar um relançamento portentoso em novas edições remasterizadas, com bônus, e tudo mais (em 2010 completam 40 anos da morte do guitarrista).